Tenho uma amiga inteligente, talentosa e muito graciosa que mora em Seattle, nos Estados Unidos. Seu nome é Carolyn Martin. Mas Carolyn sofre de paralisia cerebral, e o drama específico de sua situação é que os sinais visíveis da enfermidade — movimentos desengonçados com os braços, baba, fala com dificuldade, uma cabeça bamboleante — levam as pessoas que se encontram com ela a ficar imaginando se ela é retardada. Na realidade, sua mente é uma das partes que funcionam perfeitamente; o que lhe falta é o controle muscular.
Carolyn viveu quinze anos numa casa para retardados mentais, porque o Estado não tinha nenhum outro local onde pô-la. Seus amigos mais chegados eram pessoas como Larry, que arrancava de si todas as roupas e comia as plantas ornamentais da instituição, e Arelene, que só sabia falar três sentenças e chamava todo mundo de "mamãe". Carolyn decidiu escapar daquela casa e encontrar um lugar significativo para si no mundo lá fora.
Finalmente ela conseguiu mudar-se e ter o seu próprio lar. Ali, as tarefas mais triviais representavam um desafio avassalador. Levou três meses para ela aprender a preparar um bule de chá e servi-lo nas xícaras sem se escaldar. Mas Carolyn alcançou esse e muitos outros feitos. Matriculou-se numa escola de segundo grau, formou-se, então foi estudar na faculdade de sua cidade.
Todo mundo no campus da faculdade conhecia Carolyn como "a deficiente física". Viam-na sentada numa cadeira de rodas, encurvada, com grande esforço datilografando as anotações num aparelho denominado Canon Communicator. Poucos sentiam-se à vontade em conversar com ela; não conseguiam acompanhar os sons desordenados que fazia. Mas Carolyn perseverou, gastando sete anos para fazer um curso de ciências humanas que normalmente levaria dois anos para completar. Em seguida, ela matriculou-se numa faculdade luterana com o objetivo de estudar a Bíblia. Depois de estar dois anos ali, solicitaram-lhe que falasse aos colegas na capela.
Carolyn trabalhou muitas horas em cima do que ia falar. Datilografou a mensagem em sua forma definitiva — na sua velocidade média de quarenta e cinco minutos por página — e pediu à sua amiga Josee que a lesse em seu lugar. Josee tinha uma voz forte e clara.
No dia do culto na capela, Carolyn estava sentada em sua cadeira de rodas, do lado esquerdo da plataforma. De quando em quando seus braços convulsionavam-se sem qualquer controle, sua cabeça pendia para um dos lados de modo que quase encostava no ombro, e algumas vezes um filete de saliva escorria até a blusa. Ao seu lado estava Josee, que lia o texto belo e maduro que Carolyn havia escrito, centrado nesta passagem bíblica: "Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós.''
Pela primeira vez, alguns estudantes viram Carolyn como um ser humano completo, como eles mesmos. Antes disso, a mente de Carolyn, uma mente muito boa, tinha sempre sido restringida por um corpo "desobediente", e dificuldades de fala haviam mascarado sua inteligência. Mas, ao ouvir sua mensagem lida em voz alta enquanto olhavam para ela no palco, os estudantes puderam enxergar além do corpo numa cadeira de rodas e imaginar uma pessoa completa.
Com sua fala entrecortada Carolyn me contou sobre aquele dia, e eu só consegui entender mais ou menos metade das palavras. Mas a cena que descreveu tornou-se para mim uma espécie de parábola da transposição: uma mente perfeita presa dentro de um corpo espástico, sem controle, e cordas vocais que falhavam a cada duas sílabas. A imagem neotestamentária de Cristo como sendo a cabeça do corpo assumiu um novo significado para mim; adquiri uma noção tanto da humilhação que Cristo experimenta em seu papel como cabeça, como também da exaltação que concede a nós, os membros de seu corpo.
Nós, a igreja, somos um exemplo da transposição levada ao extremo. Lamentavelmente não oferecemos prova inquestionável do amor e da glória de Deus. Algumas vezes, à semelhança do corpo de Carolyn, obscurecemos a mensagem em vez de a transmitirmos. Mas a igreja é a razão por detrás de toda a experiência humana, a razão primeira para existirem seres humanos: para de alguma forma deixar que outras criaturas que não são Deus levem a imagem de Deus. Ele julgou que isto valia a pena, o risco e a humilhação.
Carolyn viveu quinze anos numa casa para retardados mentais, porque o Estado não tinha nenhum outro local onde pô-la. Seus amigos mais chegados eram pessoas como Larry, que arrancava de si todas as roupas e comia as plantas ornamentais da instituição, e Arelene, que só sabia falar três sentenças e chamava todo mundo de "mamãe". Carolyn decidiu escapar daquela casa e encontrar um lugar significativo para si no mundo lá fora.
Finalmente ela conseguiu mudar-se e ter o seu próprio lar. Ali, as tarefas mais triviais representavam um desafio avassalador. Levou três meses para ela aprender a preparar um bule de chá e servi-lo nas xícaras sem se escaldar. Mas Carolyn alcançou esse e muitos outros feitos. Matriculou-se numa escola de segundo grau, formou-se, então foi estudar na faculdade de sua cidade.
Todo mundo no campus da faculdade conhecia Carolyn como "a deficiente física". Viam-na sentada numa cadeira de rodas, encurvada, com grande esforço datilografando as anotações num aparelho denominado Canon Communicator. Poucos sentiam-se à vontade em conversar com ela; não conseguiam acompanhar os sons desordenados que fazia. Mas Carolyn perseverou, gastando sete anos para fazer um curso de ciências humanas que normalmente levaria dois anos para completar. Em seguida, ela matriculou-se numa faculdade luterana com o objetivo de estudar a Bíblia. Depois de estar dois anos ali, solicitaram-lhe que falasse aos colegas na capela.
Carolyn trabalhou muitas horas em cima do que ia falar. Datilografou a mensagem em sua forma definitiva — na sua velocidade média de quarenta e cinco minutos por página — e pediu à sua amiga Josee que a lesse em seu lugar. Josee tinha uma voz forte e clara.
No dia do culto na capela, Carolyn estava sentada em sua cadeira de rodas, do lado esquerdo da plataforma. De quando em quando seus braços convulsionavam-se sem qualquer controle, sua cabeça pendia para um dos lados de modo que quase encostava no ombro, e algumas vezes um filete de saliva escorria até a blusa. Ao seu lado estava Josee, que lia o texto belo e maduro que Carolyn havia escrito, centrado nesta passagem bíblica: "Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós.''
Pela primeira vez, alguns estudantes viram Carolyn como um ser humano completo, como eles mesmos. Antes disso, a mente de Carolyn, uma mente muito boa, tinha sempre sido restringida por um corpo "desobediente", e dificuldades de fala haviam mascarado sua inteligência. Mas, ao ouvir sua mensagem lida em voz alta enquanto olhavam para ela no palco, os estudantes puderam enxergar além do corpo numa cadeira de rodas e imaginar uma pessoa completa.
Com sua fala entrecortada Carolyn me contou sobre aquele dia, e eu só consegui entender mais ou menos metade das palavras. Mas a cena que descreveu tornou-se para mim uma espécie de parábola da transposição: uma mente perfeita presa dentro de um corpo espástico, sem controle, e cordas vocais que falhavam a cada duas sílabas. A imagem neotestamentária de Cristo como sendo a cabeça do corpo assumiu um novo significado para mim; adquiri uma noção tanto da humilhação que Cristo experimenta em seu papel como cabeça, como também da exaltação que concede a nós, os membros de seu corpo.
Nós, a igreja, somos um exemplo da transposição levada ao extremo. Lamentavelmente não oferecemos prova inquestionável do amor e da glória de Deus. Algumas vezes, à semelhança do corpo de Carolyn, obscurecemos a mensagem em vez de a transmitirmos. Mas a igreja é a razão por detrás de toda a experiência humana, a razão primeira para existirem seres humanos: para de alguma forma deixar que outras criaturas que não são Deus levem a imagem de Deus. Ele julgou que isto valia a pena, o risco e a humilhação.
"Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher todas as cousas. E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos... Mas... cresçamos em tudo naquele que é o cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado, pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor."
(Efésios 4:10-16)
Trecho retirado do livro Decepcionado com Deus - Philipy Yancey - Editora Mundo Cristão - páginas 244 à 246












Muito bom este artigo!
ResponderExcluirQue nós (Corpo) possamos deixar que Cristo (Cabeça) controle-nos a cada dia e assim sejamos usados por Ele para a honra DELE.
Importante reflexão!
ResponderExcluirSe deixar governar pelo Senhor é a marcar de quem está sujeito, admitindo ser totalmente dependente Dele. Deixar Jesus tomar as rédias... e assim aprender com Ele, segundo o Seu coração e segundo Sua Palavra.